O SORVETEIRO SUMIU Entre suas múltiplas funções, embalagens de sorvete são vendedoras Vem chegando o verão. A primavera, prenúncio de que o calor está por vir, eleva a adrenalina das empresas que apostam tudo na estação mais quente do ano para faturar alto. É hora de dar os retoques finais nas estratégias traçadas para alcançar metas num ardiloso jogo de tiro curto, que se evidencia sobretudo no mais emblemático dos mercados envolvidos por esse boom sazonal, o de sorvetes e picolés. Para as empresas que atuam nessa categoria de produtos, o momento é mais que crítico, já que o faturamento obtido no verão tem praticamente a obrigação de sustentar o empreendimento ao longo do ano. Passado o período de calor forte, as vendas despencam assustadoramente, pois, ao contrário de europeus e norte-americanos, os brasileiros não encaram o produto como alimento nutritivo, adequado a qualquer situação, e sim como guloseima para refrescar os quarenta graus à sombra. Mas como lamentar não adianta, o importante é aproveitar o momento enquanto as transformações não ocorrem. E dentro desse segmento, dependente da compra por impulso, a embalagem cumpre papel decisivo na alavancagem de vendas, atraindo o consumidor. Além de despertar a atenção e o appetite appeal, o pote, a flow-pack, o cartucho ou o copo de sorvetes de massa e picolés também têm de proteger na distribuição e no caminho até o lar. PAPEL CARTÃO TAMBÉM É DESTAQUE Cartuchos, luvas, tampas e rótulos puxam as vendas do material para sorvetes Outro material que segue com destaque no segmento de sorvetes é o papel cartão. A versatilidade do material e a característica forte de permitir reproduções gráficas de alta qualidade o mantém no páreo quando o assunto é embalagem para sorvetes. Há alguns anos, os cartuchos tinham presença maior nesse mercado, quando as linhas de "leve para casa" apoiavam-se bastante no formato "tijolo". Com a disseminação dos potes plásticos para acondicionamento do produto com apelo doméstico, seria possível pensar em redução drástica, para não dizer eliminação total, do consumo de papel cartão pela indústria do segmento. Ledo engano. O material amoldou-se à nova realidade, tendo presença garantida em cartuchos para tijolos de massa (embora o segmento tenha decaído), tortas e sorvetes com valor agregado, alguns picolés premium e, numa tendência crescente, como multipacks de picolés para se consumir em casa. Isso sem falar que a tendência do uso dos potes retangulares para sorvetes trouxe consigo a difusão do uso conjunto das luvas (cintas) de cartão, que dão o suporte para a comunicação com o consumidor e na diferenciação de sabores. "Após um declínio apontado nos últimos anos, pela substituição por outros tipos de embalagens, o consumo de embalagens de cartão vem crescendo, devido principalmente a chegada das embalagens tipo multipack. As luvas para potes representam também um segmento a se considerar", reforça Célio Coelho de Magalhães, diretor de marketing da paulistana Brasilgráfica, uma das maiores empresas a atuar na conversão de papel cartão para o mercado de sorvetes. A Brasilgráfica produz cartuchos, caixas, multipacks, luvas, discos de tampa e rótulos para o segmento. De acordo com Magalhães, esses produtos têm base em cartões especiais, frigorificados, fornecidos pela Ripasa (Ice Card Kot), Cia. Suzano (Super 6 Quartz) e Itapagé (Itafreezer). "O segmento de embalagens para sorvetes representa uma fatia muito importante dentro do faturamento global da empresa", salienta Magalhães. Segundo o profissional, o leque de acabamentos destinado a esse mercado é bastante rico. "Destacamos o alto relevo, verniz barreira a água de alto brilho, verniz ultravioleta, verniz hi-gloss e a laminação com polietileno ou polipropileno bi-orientado (BOPP)". Magalhães ressalta que a Brasilgráfica dispõe de amplo know-how para a aplicação de alto relevo diferenciado, em várias alturas, e dos revestimentos aplicados, "o que proporciona uma garantia de resistência à umidade provocada pelas baixas temperaturas das câmaras frias". O SORVETE ATRAVÉS DOS TEMPOS* Das covas às casquinhas e palitos, alimento é venerado há séculos Para a maioria dos historiadores e estudiosos, o sorvete nasceu na China, há mais de três mil anos. E o sucesso do produto vem de longe, como provam alguns registros históricos. No século IV a.C., por exemplo, o lendário Alexandre, o Grande, em meio a suas campanhas, enchia grandes covas com neve, que era misturada com frutas e mel. Assim, assegurava a sobremesa gelada para acompanhar suas refeições. Na Roma Antiga, o tirânico imperador Nero, no ano 62 d.C., fazia questão de servir a seus asseclas e convidados uma mistura de frutas trituradas, mel e neve. Conta-se até que quando não havia neve nas proximidades, Nero mandava buscá-la nos Alpes. Foram os italianos os primeiros no ocidente a entrar em contato com a receita de sorvete preparada com a técnica de congelamento artificial desenvolvida pelos chineses, em 1292, graças ao célebre explorador Marco Polo. Em 1533, a receita chegou à França, junto com a comitiva da futura rainha Catarina de Médicis, então noiva do Duque de Orleans, que se tornaria Henrique II da França. A corte francesa ficou deslumbrada com o alimento e, a partir daí, o sorvete foi difundindo-se progressivamente em outros países da Europa. O sorvete ganhou popularidade sobretudo a partir de 1660, quando o italiano Procopio de Coltelli abriu em Paris o Café Procope, defronte à Comédia Francesa. Para se ter idéia do sucesso que o alimento fez, em 1676 já havia sido criada na capital francesa a primeira corporação de "vendedores de sorvetes", composta por 250 membros. Sorveteiros, notavelmente os italianos, fizeram sucesso com o produto, valendo destacar o napolitano Tortoni, que em 1798 lançou uma receita que levava seu nome e que consistia de uma bolacha cheia de sorvete. Também é atribuída a esse italiano duas outras criações: a cassata e as tortas napolitanas. Eram conhecidas cerca de 1.700 receitas quando o sorvete cruzou o Atlântico e chegou aos Estados Unidos. Em 1744, Philip Lenzi, considerado o introdutor da novidade no país, anunciava em um noticiário de Nova York que acabava de chegar de Londres trazendo diversos produtos. Entre eles, o sorvete. A partir de 1900 diversas descobertas científicas foram aplicadas na fabricação de sorvetes, contribuindo de forma decisiva para a expansão da popularidade do produto mundo afora. Entre elas, o compressor e a expansão direta do amoníaco para refrigeração inventados pelo alemão Linde; o homogeneizador criado pelo francês Gaulin; e a aplicação técnica do sistema de pasteurização, descoberto por Louis Pasteur, que permitiu a obtenção de misturas de boa qualidade higiênica. A partir desse momento se pode afirmar que começou a história do sorvete industrial, tal como conhecemos hoje. Há controvérsias quanto à criação do sorvete em palitos. Alguns atribuem sua invenção ao americano Harry Bust, que teria lançado a novidade em 1923. Outros afirmam que seu criador foi Frank Epperson, que esqueceu no congelador um copo de suco de frutas com uma colher dentro. A CHEGADA AO BRASIL O sorvete passou a ser conhecido no Brasil em 1834, mais precisamente a partir do dia 6 de agosto daquele ano, quando o navio norte-americano Madagascar aportou no Rio de Janeiro, carregado com 217 toneladas de gelo. Dois comerciantes adquiriram essa carga e começaram a fabricar sucos e sorvetes artesanais com as frutas nativas, utilizando o nome de "gelados". Em janeiro de 1836, o italiano Luigi Bassino passou também a fabricar sorvetes. Nessa época, o gelo era envolto em serragem e enterrado em grandes covas para não derreter, durante cerca de cinco meses. O registro da chegada do sorvete a São Paulo data de 1878 e aparece num anúncio do jornal "A Província de São Paulo" (mais tarde "O Estado de S.Paulo"). Em sua edição de 4 de janeiro, o jornal estampou o seguinte texto publicitário: "Sorvete todos os dias às 15 horas, R. Direita, 44". Entre os anos 1840 e1889, o imperador D. Pedro II costumava tomar sorvetes na gelateria de Antonio Francione. Mas só muitos anos após o término do período imperial, já sob o regime republicano, é que surgiu a primeira fábrica brasileira de sorvetes, chamada "Gato Preto". Uma curiosidade: o sorvete pode ser visto como o responsável pelo primeiro ato de rebeldia das mulheres brasileiras e, assim, não é exagero apontá-lo como precursor do Movimento de Libertação Feminino, já que, para poder saboreá-lo, as mulheres exigiram o direito de também entrar nas confeitarias - até então reduto masculino exclusivo ESTABELECIMENTO DAS MARCAS FORTES Na década de 30, a Hazelwood Ice Cream Co. saiu da China e aportou no Brasil, fundando em 1941, no Rio de Janeiro, a U. S. Harkson do Brasil, a primeira indústria brasileira de sorvetes. Era o embrião da Kibon, cujo nome foi instituído em 1960. Mas a marca Kibon foi usada desde o início. A origem do nome Kibon não é totalmente conhecida. Uma versão conta que convidaram o escritor Orígenes Lessa para criar um nome para o novo sorvete. Ele se lembrou de uma marca que existiu no Brasil durante muitos anos - Eskimau - e partiu para o oposto: Eskibon. Daí para Kibon foi um passo. Já os sorvetes Yopa foram lançados pela Nestlé no Brasil em 1972, numa iniciativa amparada pela experiência da empresa em mercados como os da Suíça, França, Espanha, Argentina, Chile e México. Inicialmente, a distribuição se restringia à região Centro-Sul do país. Em 1990, ocorreu uma fusão entre as marcas Yopa e Gelato e, em 1994, a Yopa comprou a última, tornando-se o principal concorrente industrial da Kibon no Brasil. Recentemente, a Nestlé decidiu apostar na marca Sorvetes Nestlé em substituição à Yopa. * Material compilado dos sites da Kibon e da Sorvetes Nestlé (Yopa)